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Archive for novembro \01\UTC 2011

Ah quanta saudade! Ainda ontem tava me lembrando das nossas pescarias… Nunca fui muito corajosa com as minhocas, mas o senhor sempre me ajudava a iscar minha vara de pescar, mesmo que depois da terceira ou quarta vez ficasse bravo e me mandasse parar de perturbar e me virar sozinha! Lembra da vez que pescamos um cágado? O senhor deu tanta risada quando, sem querer, me assustei com o movimento do bicho e joguei-o com tanta força no chão… pobre bicho nojento! Voltou correndo pra água, e o senhor ria da minha cara de assustada…

E as nossas conversas? Quando era sobre política, todo mundo saía da mesa e nós, mesmo depois de 4 horas se xingando, conseguíamos concordar com alguma coisa sem sentido no final. Alguma que não fazia minimamente parte do assunto inicial. Geralmente era algo sobre novela…. sempre acabava com novela! hahahahahaha… O senhor lembra como expulsávamos as pessoas da sala pra assistir a novela das 19:00? Mas no fim ninguém assistia nada, tanto eu quanto o senhor gostávamos de contar histórias, então eu me envolvia em algum relato que contava e fazia perguntas pra tentar extrair o máximo de informação possível pra rir em seguida… E o senhor também gostava de ouvir minhas histórias… era uma troca quase desleal, pois o senhor me contava das façanhas pelo Brasil, e eu ficava ali, fascinada, ouvindo atentamente, e quando chegava a minha vez, sempre falava de algo entre escola/banda, bah! monótono demais!, mas ainda assim o senhor se interessava e continuava querendo ouvir… Isso me deixava tão feliz!

Tio, lembra das horas que passávamos tocando violão? Mesmo no início, quando eu tocava muito mal, o senhor sempre me incentivou pedindo músicas que eu nunca tinha ouvido. E eu fazia um esforço imenso pra tirar tudo direitinho e tocar pro senhor ouvir! Tentava ser o mais perfeita possível! Lembra do réveillon que pegamos o violão do Edson emprestado e, enquanto todo mundo tava fazendo a contagem, eu estava sentada ao pé do senhor e nós revezávamos pra tocar os sertanejos que tanto gostava! Foi nesse dia, depois de tanto tempo de convivência, que descobri que o senhor também tocava! Fiquei tão feliz! Me senti tão importante por descobrir que tínhamos mais alguma coisa em comum!

Até hoje não sei como o senhor tinha paciência pra me aguentar! Eu bagunçava tanto naquela oficina! Ficava pulando de máquina em máquina, caminhão em caminhão, carro em carro, e o senhor, apesar de gostar tanto daquele lugar, nunca me repreendeu! Pelo contrário, lembro das vezes que estávamos eu e a tia na sala, e o senhor subia só pra me chamar pra brincar na oficina… eu ficava tão feliz! Ainda era a época da Taiga, e eu tinha um medo anormal daquela cadela assassina!, mas mesmo assim eu descia porque o senhor tava lá pra me proteger…

Bah, quantas coisas passamos juntos! E só não passamos mais por negligência minha… como me arrependo!

Tio, o mais perto que cheguei de falar que amava o senhor foi quando, no meio daquele cataclisma há alguns anos, falei que, dos 3 tios que eu tive durante a infância, o senhor era o único que ainda tava do meu lado, pois Papai do Céu tinha levado todos os outros pra morar com ele. E lembro como o senhor chorou e me abraçou quando eu disse isso…

Hoje faz 1 ano. 1 triste e penoso ano. Como fiquei revoltada com o que tava acontecendo, o senhor não tem idéia… Mas mais uma vez não consegui falar com o senhor, durante esse tempo, pois estava numa fase complicada com a faculdade e eu tinha certeza absoluta que o senhor ia se safar dessa, assim como saiu de tantas outras!

Tio, às vezes eu ainda acho que o senhor vai entrar pela porta de casa me chamando de “moleca”, sentando na mesa pra comer comigo, pro senhor, a sopa da minha mãe, e como o senhor sabe que eu não gosto de comida que bóia (e como o tio ria quando eu falava isso), então eu acabava comendo arroz com ovo frito quase sempre e, depois disso, íamos para a sala… Às vezes ainda vejo o senhor sentando no canto do sofá com as pernas cruzadas e com as mãos atrás da cabeça (hábito esse que eu herdei também) e abrindo aquele sorriso maroto pra mim, logo quando eu passava pelo batente…

Papai do céu foi muito sacana comigo levando o senhor pra morar com ele, mas foi muito esperto também! O mundo tá muito ruim, e o senhor sempre foi uma pessoa tão boa que, tenho pra mim, Ele resolveu levar o senhor pra um lugar melhor.

Tio, aprendi que saudade é uma coisa inevitável e que dói tanto… E, como não posso abraçar e nem conversar com o senhor uma última vez, estou tentando escrever minha saudade pra extravazar um pouco.

O senhor sempre foi o melhor tio e padrinho do mundo. Te amo.

Moleca.

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